Eu danço, você joga.

Eu não sei.

Na verdade, eu adoro essa frase. Já percebeu isso? Não vai me dizer que não sabe. Risos.

Não sei se acho graça, na verdade. Mas tudo bem. Agora tanto faz.

Já passou. Uns chamam de fase, outros de depressão, alguns acham normal, outros levam uma vida assim pra sempre.

Assim como? Não sei, assim, tipo, sei lá. Ninguém se importa então não preciso nem explicar.

Eu gosto de dançar apesar de achar realmente muito difícil se for conforme a música. Pior que eu gosto mesmo de dançar toda descompassada. No auge da minha inspiração, até arrisco ficar parada, assim meio que absorvendo as coisas invisíveis… Alguém deve achar charmoso. Você acha, não é?

Não sei. Não sei se você saberia responder porque você não sabe dançar, você sabe jogar. Sabe jogar muito bem.

Digo, não sei. Pensando bem, você é bom em estratégia. Nunca sei se quer ganhar pelo jogo ou se por você mesmo.

As vezes, quase sempre, sinto que é pelo ganhar. Não sei.

Um filósofo que li uma vez conseguiu unir as duas coisas: dança e jogo. Só que eu não sei se eu deveria confiar em filósofos.

Dançar e jogar implicam movimento. Esse movimento eu vejo no fundo dos seus olhos. E você pode ver no meu, se olhar com carinho. Vejo algo ali se relutando, algo forte e que não para quieto um segundo.

No fim, acho que isso compensa qualquer coisa.

Será? Não sei.

Pode ser que um dia a palavra fique extinta, que não tenhamos mais órgãos sexuais, que o prazer e o paladar sejam abolidos e que até a visão e o tato percam os sentidos, mas esse movimento de quando eu te olho e você me olha…

O que estamos fazendo?!

Dançando ou jogando?

Não sei.

Hudinilson Jr.

Miru Kim

Yoko Ono

Kiki Smith

Insanidade.

Agora já era. O juiz apertou a pistola, foi dada a largada. Abri meu peito pro mundo e disse: é isso o que você quer? Então pega! 

E joguei minhas tripas mundo afora. Tenho deixado todos pisotearem essas tripas minhas. Assim, hm, gostoso, como dói. “É isso o que vocês queriam? Seus bandos de sadomasoquistas de merda!”

Perco o controle total. Dessa vez estou fora de casa. Dentro de um carro parado em um estacionamento. Tenho que sair daqui logo mas não posso dirigir nesse estado de insanidade. 

Os segundos passam, as pessoas passam, a vida está te esperando! Então eu dou um passo a frente e a vida diz, “não, mas não desse jeito. Volte e dê o passo de novo. Dessa vez venha feliz, porém mantendo o ar sério. Você é uma mulher agora.” 

Respiro fundo, tento me ajeitar e dou os primeiros passos muito desastradamente. A vida diz: muito bem, continue assim. Com o tempo você verá que se foder assim é mais gostoso.

Eu vou confusa. Passa um tempo infinito (quantos, uns cinco dias?) e eu já me sinto de volta ao mundo dos mortais. Mais legal que um robô: trabalho, casa, sonhos…   E não é que a vida tem razão? Essa sensação de liberdade me faz sorrir.

Eis que os próximos dias amanhecem  ensolarados, bonitos, poluídos e barulhentos. Ah, sinal de que está tudo certo. Eis que o meu olhar fotográfico desperta como um dragão adormecido. O sol não me faz ver a parede como uma divisão de ambientes, uma construção… O sol me faz ver a parede como um mar de cores e sensações. A luz penetrando na sala e refletindo na parede… A prova viva da harmonia entre a natureza e o homem, quem sabe. E essa sensação de beleza despertada pela luz provoca um nó dentro de mim, começo a chorar. Já perdi toda a seriedade da vida e agora sou tão inocente quanto uma criança. O sorriso foi ocupado pelas lágrimas. Está errado.

A parede não passa de uma parede assim como 2+2=4, como dizia o Grande Irmão de George Orwell.

“Volte para o exército”, alguma voz me dizia. “Não pire! Como você vai trabalhar nesse estado de insanidade? Como vai ter dinheiro pra levar sua vida? Quem vai te sustentar assim, louca?” Pensei bem. A sensação de liberdade é muito mais garantida do que a liberdade de fato.

“Prefiro sofrer e ser livre!”

“Silêncio!”

Reprimida, volto aos eixos. De que adianta?

 

Sei nada.

Finalmente. Esse tomar e enfiar no cu finalmente vai acabar. Convenhamos: ninguém aguenta mais. Pervertidos e sadomasoquistas podem achar gostoso. Eu também achava, no começo. Mas a questão nem é essa. Um tapinha não dói, disse algum intelectual famoso do qual esqueço o nome agora.

A questão é que doer e sentir dor são coisas diferentes. Se o caso é sofrer, agora nas palavras mundanas de Tom Zé, eu posso morrer de amor; vestir toda minha dor, no seu traje mais azul; restando aos meus olhos o dilema de rir ou chorar.

Já nem sei mais se morro ou se vivo. É engraçado, parece. É mais desesperador, admito. Antes assumia a condição de zumbi: morto-vivo. Agora já nem sei mais. Parece que estou num ponto vegeta-contemplativo; a isso soma a roda que gira a dialética da vida: a mudança repentina entre ceder e lutar e depois lutar e ceder e assim sucessivamente.

Pensando bem, ceder é lutar mais do que tudo. É.

Já sei nada e carregando esse conhecimento no peito, sigo sofrendo, rindo, amando e morrendo. E assim sei quem sou e me torno tudo!

Pensamentos de um zumbi louco.

Nota

Acordo estranha. Não sei bem se estou com preguiça, se estou doente, se é mau humor, má vontade, qualquer coisa assim. Tomo um café, um banho. Me benzo, me chacoalho, me bato. Dou risada, corro, salto e depois choro, me atiro no chão, sem esperança nenhuma de viver. Não sei como vou levar o dia inteiro nas costas e não são nem oito horas da manhã.

Porém o sol já está forte, o trânsito já está pesado e as pessoas, já muito bem acordadas, franzem os olhos, xingam, correm, se tensionam, se atrasam, saltam atrás dos ônibus, brigam entre si, trabalham, apertam avidamente o touch screen do celular, sem nem piscar os olhos … Quanta vitalidade! (Inveja, talvez, seria o que sinto, enquanto definho num banho gelado, rezando para que o dia acabe mesmo sem ter começado.)

Com o tempo vou entendendo que só o cotidiano salvará essa falta de gosto pela vida e como se tivesse levado um choque, parto rumo às tarefas diárias, mundanas, fúteis, intelectuais pelas quais o meio em que vivo (ou decidi viver) exige o mínimo do meu esforço. (E pensando exatamente em esforço que até agora fico na dúvida se o oftalmologista me recomendou usar óculos pela deficiência da visão ou se, com dó da minha falta de interesse pelos aspectos intelectuais dessa vida imunda, achou que um belo par de óculos me recolocaria na escrivaninha, nos seminários e nos livros com mais vontade.)

Aí a tarde chega, e nunca sei se com ela vem o frio ou a chuva mas é o momento deprê mais feliz do dia. A má vontade de viver se foi e agora só há espaço para um preguiça despretensiosa, normal em todo ser humano que se serve de um famoso elixir chamado cafezinho. Ainda sinto inveja de tanto vigor! Mas agora já estou feliz, sou um de nós, me estresso, corro, exalo o cheio de gente dentro do ônibus e me sinto em casa. Estou preocupada com o dinheiro, com o lugar reservado para os idosos, estou esperando ansiosamente o jornal da noite começar, o banho depois de um dia de trabalho, sou de carne e osso finalmente!

A hora de dormir vai se aproximando e eu não consigo sentir sono, extasiada pela beleza desse dia, tão frenético! Demoro pra dormir – insonia, dizem. Insisto em assistir aquele seriado, e mesmo morrendo de tédio consigo arrancar algumas risadas. Comento numa postagem na internet o ocorrido com alguns amigos e por algum motivo me sinto popular.

Pensando nos afazeres da vida, me forço a deitar. Então fecho o olho e tudo vem na cabeça, em ritmos disparados. Um dia inteiro, só um dia, é uma vida. Uma vida forçadamente vivida. Fico deprimida: ótimo para dormir. Na verdade quero morrer. Não suporto mais esse tédio que é a pressão de viver freneticamente. Não, não é uma mera vida na cidade grande. É uma existência do agora, derretendo a cada dormir e acordar. Quero chorar, mas o sono vem e o despertador tocará logo cedo. Ótimo. Estou a salva.

Mira Schendel. A volta de Aquiles, 1964.

Mira Schendel. Sem título, 1966.

Mira Schendel. Sem título [Bomba], 1965.